14 outubro 2007

 

Traduzir-se

Traduzir-se


Uma parte de mim


é todo mundo:


outra parte é ninguém:


fundo sem fundo.



Uma parte de mim


é multidão:


outra parte estranheza


e solidão.



Uma parte de mim


pesa, pondera:


outra parte


delira.



Uma parte de mim


almoça e janta:


outra parte


se espanta.



Uma parte de mim


é permanente:


outra parte


se sabe de repente.



Uma parte de mim


é só vertigem:


outra parte,


linguagem.




Traduzir uma parte


na outra parte


—que é uma questão


de vida ou morte —


será arte?


Ferreira Gullar.

De Na Vertigem do Dia (1975-1980)

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